
Entenda os sinais desta condição neurológica séria, desde a dor de cabeça atípica até alterações na visão e fala.
Começa com uma dor de cabeça que parece diferente. Não é como as enxaquecas ou dores de tensão habituais. Esta é persistente, piora a cada dia e parece não ceder aos analgésicos que você costuma tomar. Deitar-se para descansar, ao contrário de ajudar, parece intensificar a dor. Este cenário, infelizmente comum, pode ser o primeiro indício de uma trombose venosa cerebral.
De acordo com a Sociedade Portuguesa de Neurologia, a trombose venosa cerebral (TVC) é um tipo relativamente raro de acidente vascular cerebral (AVC), que, de acordo com as estimativas, afeta entre 1,3 e 1,6 pessoas em cada 100 mil.
O que é trombose venosa cerebral e por que ela ocorre?
A trombose venosa cerebral, também conhecida pela sigla TVC, é a formação de um coágulo (trombo) em uma das veias ou seios venosos do cérebro. Essas veias são responsáveis por drenar o sangue utilizado pelo tecido cerebral de volta para o coração. Quando um coágulo obstrui esse fluxo, a pressão dentro dos vasos aumenta.
Essa obstrução pode levar a duas consequências graves: o extravasamento de sangue para o tecido cerebral, causando uma hemorragia, e o inchaço do cérebro (edema). Segundo o estudo sobre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da trombose venosa cerebral, publicado na National Library of Medicine, as mulheres são três vezes mais afetadas e são significativamente mais jovens que os homens.
Diferente do Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico, que ocorre pelo bloqueio de uma artéria que leva sangue ao cérebro, a TVC afeta o sistema de drenagem venosa. Reconhecer os sintomas da trombose venosa cerebral rapidamente é vital, pois o inchaço e sangramentos no cérebro são condições potencialmente reversíveis com tratamento de emergência precoce.
Quais são os principais sintomas da trombose venosa cerebral?
Os sinais da TVC são variados e podem evoluir ao longo de dias ou semanas. A apresentação clínica depende da localização e da extensão do coágulo. Ficar atento a eles é essencial para um diagnóstico rápido.
Os principais sintomas de trombose venosa cerebral incluem dor de cabeça intensa, convulsões e fraqueza de um lado do corpo, o que exige socorro imediato.
Dor de cabeça: o sinal de alerta mais comum
A cefaleia é o sintoma predominante e suas características são:
- Intensidade progressiva: a dor começa de forma mais branda e piora ao longo dos dias, tornando-se severa.
- Resistência a analgésicos: medicamentos comuns para dor de cabeça geralmente não surtem efeito.
- Piora com manobras: a dor pode se intensificar ao tossir, fazer esforço ou deitar, devido ao aumento da pressão intracraniana.
Dores de cabeça persistentes que pioram progressivamente e podem evoluir para convulsões são sinais de alerta graves, exigindo socorro imediato.
Alterações visuais que não podem ser ignoradas
O aumento da pressão dentro do crânio pode afetar os nervos ópticos. Isso resulta em sintomas como visão turva, percepção de flashes de luz, visão dupla (diplopia) ou até mesmo perdas temporárias da visão, geralmente em ambos os olhos.
Sinais neurológicos focais semelhantes a um AVC
Dependendo da área cerebral afetada pela drenagem venosa comprometida, podem surgir sintomas que mimetizam um AVC. A fraqueza em um lado do corpo (rosto, braço ou perna) é observada em aproximadamente 33% dos casos.
Estes sintomas incluem: fraqueza ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna); dificuldade para articular palavras (disartria) ou para encontrar as palavras certas (afasia); assimetria facial, como a "boca torta". Fortes dores de cabeça e perda de movimentos ou fala são sintomas que exigem atendimento médico de urgência.
Crises convulsivas como manifestação inicial
As convulsões são uma manifestação comum na TVC, podendo ocorrer em até 40% dos pacientes. Estudos apontam que as convulsões afetam aproximadamente 43% dos pacientes com trombose venosa cerebral. Elas acontecem quando a congestão venosa e o inchaço irritam o córtex cerebral.
Uma crise convulsiva, especialmente em alguém que nunca teve uma antes, é um sinal de grande alerta. Quando dores de cabeça persistentes progridem para convulsões, isso é um sinal de alerta grave que exige socorro imediato.
Sinais de aumento da pressão dentro do crânio
Além da dor de cabeça e dos problemas visuais, o aumento da pressão intracraniana pode causar náuseas, vômitos "em jato" (que ocorrem de forma súbita e forte) e sonolência progressiva, que pode evoluir para a redução do nível de consciência.
Quem tem maior risco de desenvolver a condição?
A trombose venosa cerebral é mais comum em adultos jovens, especialmente mulheres. Alguns fatores e condições aumentam o risco de sua ocorrência:
- Condições genéticas ou adquiridas: trombofilias, que são distúrbios que aumentam a tendência à coagulação.
- Fatores hormonais: uso de contraceptivos orais, gravidez e o período pós-parto (puerpério).
- Infecções: principalmente infecções na região da cabeça e pescoço, como otites e sinusites.
- Traumatismo craniano: lesões na cabeça que possam danificar as veias cerebrais.
- Certas doenças sistêmicas: como lúpus, outras doenças inflamatórias e alguns tipos de câncer.
Como saber se estou com trombose cerebral e o que fazer?
Identificar a TVC baseia-se na combinação dos sintomas. Uma dor de cabeça nova, muito intensa, que piora progressivamente e não responde a medicamentos, associada a qualquer outro sintoma neurológico (visão turva, fraqueza, convulsão), deve ser tratada como uma emergência.
Sintomas neurológicos da trombose venosa cerebral, como fortes dores de cabeça e perda de movimentos ou fala, podem se manifestar rapidamente, exigindo socorro médico imediato. Essa ação é crucial para evitar complicações graves, como infartos ou hemorragias cerebrais. O reconhecimento rápido dos sintomas é vital, pois o inchaço e sangramentos no cérebro são condições reversíveis com tratamento de emergência precoce.
Não minimize os sinais. A recomendação é clara: procure imediatamente um serviço de pronto-socorro. O diagnóstico rápido, feito por meio de exames de imagem como tomografia ou ressonância magnética com estudo dos vasos venosos, é essencial para iniciar o tratamento e evitar complicações graves.
Qual a diferença entre os sintomas de TVC e um AVC comum?
Embora a trombose venosa cerebral (TVC) e o acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico possam apresentar sintomas semelhantes, como alterações neurológicas e déficit motor, existem diferenças importantes que ajudam na suspeita clínica.
A principal delas está na forma como os sintomas surgem. Na trombose venosa cerebral, o início costuma ser subagudo, com evolução ao longo de dias ou até semanas. Já no AVC isquêmico arterial, os sintomas geralmente aparecem de forma abrupta, em questão de segundos ou minutos.
Outro aspecto que diferencia as duas condições é a dor de cabeça. Na TVC, ela é o sintoma inicial e predominante na maioria dos pacientes, estando presente em cerca de 90% dos casos e podendo se intensificar progressivamente. No AVC isquêmico, embora a cefaleia possa ocorrer, ela normalmente não é a principal manifestação clínica.
As crises convulsivas também são mais frequentes na trombose venosa cerebral, especialmente no início do quadro, enquanto no AVC isquêmico elas são menos comuns na fase aguda.
A trombose venosa cerebral tem cura?
Com um diagnóstico precoce e o tratamento adequado, a maioria dos pacientes apresenta uma boa recuperação. O reconhecimento e tratamento de emergência precoce são cruciais, pois o inchaço e os sangramentos no cérebro causados pela TVC são condições potencialmente reversíveis.
O tratamento principal consiste no uso de medicamentos anticoagulantes, que visam impedir o crescimento do coágulo e ajudar o corpo a dissolvê-lo, restaurando o fluxo sanguíneo. A recuperação pode variar, e alguns pacientes podem apresentar sequelas, como dores de cabeça crônicas ou déficits neurológicos, que exigem reabilitação. Por isso, a agilidade no reconhecimento dos sintomas e na busca por atendimento médico especializado é o fator mais importante para um desfecho favorável.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
Bibliografia
AL-MUFTI, F. et al. Cerebral venous thrombosis in COVID-19: a New York metropolitan cohort study. AJNR: American Journal of Neuroradiology, [s. l.], v. 42, n. 7, p. 1196-1200, jul. 2021. Disponível em: https://www.ajnr.org/content/42/7/1196. Acesso em: 15 jun. 2026.
LAL, D. et al. Spectrum of cerebral venous thrombosis in Oman. Sultan Qaboos University Medical Journal, Muscat, v. 18, n. 3, p. e336-e342, dez. 2018. Disponível em: https://mjournal.squ.edu.om/home/vol18/iss3/11/. Acesso em: 15 jun. 2026.
ZUURBIER, S. M. et al. Hydrocephalus in cerebral venous thrombosis. Journal of Neurology, [S. l.], fev. 2015.Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00415-015-7652-4. Acesso em: 15 jun. 2026.
FONSECA, C. Trombose venosa cerebral: um tipo de AVC menos conhecido. Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), 12 jul. 2021. Disponível em: https://www.spneurologia.com/noticias/trombose-venosa-cerebral-um-tipo-de-avc-menos-conh/63. Acesso em: 12 jun. 2026.

