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Narcolepsia: conheça os sintomas e tratamentos da doença do sono

Alteração compromete a qualidade do sono noturno e causa sonolência diurna

​​Geralmente, o cansaço costuma ser um reflexo de uma rotina atarefada, excesso de trabalho ou de uma noite mal dormida. Entretanto, quando os episódios de sonolência diurna são recorrentes, pode ser sinal de alguma alteração neurológica, como a narcolepsia. A Dra. Ana Carolina Andorinho, neurologista do Hospital São Lucas Copacabana, fala mais sobre o tema. 

Estágios do sono

Antes de falarmos sobre narcolepsia propriamente, primeiro é importante entender um pouco a estrutura do sono. Temos uma divisão entre sono não REM, seguido pelo sono REM. Essa combinação de sono não REM/sono REM se repete de forma cíclica ao longo da noite. E, durante o sono não REM, ocorre uma subdivisão em três estágios.  

Sono REM

REM é a sigla para Rapid Eye Movement, cuja tradução literal é “movimento rápido dos olhos". Esse movimento é tão característico de um padrão particular do sono que não apenas nomeia essa fase, como também serve de marco divisor que distingue esse estágio dos demais, os não REM.

O sono REM é constituído pelos sonhos, e já se cogitou que os movimentos oculares representassem uma visão em varredura sobre o “filme" criado pelo cérebro. Apesar de controversa, parte dessa hipótese voltou a ganhar força com estudos mais recentes, em que as emoções geradas pelos sonhos puderam influenciar tais movimentos. Levanta-se também a hipótese de que o movimento rápido dos olhos reflita o processamento das emoções projetadas pelos sonhos. A construção de inúmeros cenários torna o sono REM importante para a plasticidade visual, sensitiva e motora. Do mesmo modo, fortalece a conexão entre áreas corticais mais distantes, o que repercute em ganhos para a memória, a criatividade, o aprendizado e as demais funções cognitivas.

Entre os adultos, o primeiro sono REM costuma chegar cerca de 90 minutos depois do adormecer e, a cada ciclo, a duração aumenta, podendo chegar a até uma hora. Apesar da intensa atividade cerebral e dos rápidos movimentos oculares, os músculos permanecem paralisados.

“Embora o sono REM seja caracterizado por sonhos vívidos e por um padrão robusto de atividade cerebral cortical, semelhante ao da vigília, também é o estágio em que há a perda do tônus muscular (atonia). Uma vez com os músculos relaxados, estamos protegidos de sairmos mexendo o corpo em paralelo à realidade simulada dos sonhos", explica a especialista. 

Sono não REM – precedente ao REM

Inclui três subdivisões: N1, N2 e a fusão de N3 com N4.

  • N1: Assim que nos deitamos para dormir, entramos na transição entre vigília e sono. Este é aquele sono leve que, ao mesmo tempo que deixa os olhos “pesados" e proporciona relaxamento muscular, também pode ser interrompido por qualquer ruído.
  • N2: Essa é uma fase intermediária entre o sono leve e o profundo. Nesse ponto, os batimentos cardíacos, a temperatura corporal e a respiração diminuem, enquanto os músculos e os olhos relaxam. Somando todos os ciclos, esse estágio compreende mais da metade da noite. 
  • N3 + N4: Esse é o sono mais profundo, aquele que possui a função reparadora que nos trará disposição pela manhã. Esse estágio dura entre 20 e 40 minutos.

“Podemos dizer que o sono não REM é um mergulho em profundidades gradualmente maiores, em que a demanda por energia é menor e a atividade cerebral é mais lenta. Isso permite que resgatemos o equilíbrio e a restauração da energia cerebral, também fundamentais para a consolidação do aprendizado", reflete a neurologista. 

O que é narcolepsia?

A narcolepsia é um distúrbio do sono que compromete os ciclos mencionados acima. O primeiro pico – e o principal – dessa alteração se manifesta por volta dos 15 anos e o segundo, entre os 30 e 40 anos. Essa condição é rara e está atrelada a uma desorganização nas fases do sono, de modo que o sono não REM está encurtado.

“Na narcolepsia, estágios precedentes à fase REM são breves a ponto de a fase REM começar logo após adormecermos. Dessa forma, o cérebro aproveita menos da fase que deveria proporcionar descanso e restaurar a energia. E tão impactante é a “invasão" promovida por elementos do sono REM sobre a vigília que o paciente pode vivenciar ataques de sono e de atonia. Por outro lado, durante o sono noturno, o REM pode ser comprometido, o que leva a despertares noturnos e falha no relaxamento muscular desejado", explica a médica.

Ainda segundo a Dra. Ana Carolina, um estudo estadunidense realizado entre 2013 e 2016 registrou que a incidência de narcolepsia chegou a 44 por 100 mil habitantes: “Os dados apontam para um diagnóstico raro. Porém, essas informações epidemiológicas variam muito entre os estudos, o que pode ser reflexo de falha no reconhecimento diagnóstico, ou seja, um subdiagnóstico", relata a neurologista. 

Sintomas de narcolepsia

Entre os sintomas de narcolepsia, a hiper sonolência diurna é o que mais se destaca. E, diferente da sonolência após uma noite “mal dormida", na narcolepsia, o paciente pode ser acometido por ataques de sono extremamente intensos e irremediáveis, ainda que tenha acordado descansado pela manhã. Além disso, breves cochilos de 30 minutos podem ser reparadores e até equivaler a várias horas de sono. Atividades mais monótonas e consideradas entediantes tendem a desencadear esses ataques. Entre os outros sinais não tão conhecidos estão:

  • Cataplexia – perda súbita do tônus basal (atonia); quando presente, o diagnóstico de narcolepsia é praticamente certo. Pode acometer qualquer músculo, mas geralmente se inicia em regiões corporais mais altas, levando à queda do pescoço e da cabeça, por exemplo. Momentos e sensações positivas que se destacam, como um episódio de euforia ou uma intensa gargalhada, estão entre os gatilhos que podem deflagrar a cataplexia.
  • Fragmentação do sono noturno.
  • Sonhos vívidos com falha no mecanismo de “desligar" o tônus muscular. Este é um exemplo de prejuízo da sincronização entre o sonho e a atonia que seria esperada nessa fase.
  • Paralisia do sono – tende a ocorrer no despertar ou logo no início do sono. É outro exemplo de falha de sincronia, pois o paciente consegue atingir a consciência, mas ainda é incapaz de executar qualquer movimento, já que seus músculos permanecem em atonia.
  • Alucinações – também estão presentes nas fases de transição no despertar ou no adormecer. As alucinações visuais são o tipo mais comum. 

O que pode causar a narcolepsia?

Ainda não há uma definição sobre as causas da narcolepsia. Porém, é possível relacioná-la a um desequilíbrio entre os neurotransmissores responsáveis pelo sono REM durante a noite e sua interferência durante a vigília.

“No final dos anos 1990, foram identificadas as orexinas A e B (também chamadas hipocretinas), moléculas associadas à manutenção da vigília. Na narcolepsia clássica, os níveis de orexina costumam estar reduzidos e os pacientes tendem a apresentar sintomas mais característicos, como a cataplexia, isto é, a perda de tônus durante a vigília", afirma a especialista. 

Narcolepsia ou apneia do sono: qual a diferença?

Enquanto a narcolepsia é uma disfunção primária da organização dos estágios do sono, em que há a redução do sono não REM e a intrusão do sono REM durante o dia, na apneia, o prejuízo do sono é secundário ao distúrbio ventilatório, que leva à dificuldade de respiração e baixa oxigenação e aos consequentes despertares noturnos. O tipo de apneia do sono mais comum é a obstrutiva, cogitada com base no relato de roncos emitidos pelo paciente durante o sono.

“Entretanto, como as duas condições estão entre as principais causas de sonolência diurna e considerando que a apneia obstrutiva do sono é mais comum entre aqueles com narcolepsia que na população geral, é útil avaliar se o paciente com suspeita de narcolepsia também não sofre de apneia do sono. Isso permite a identificação de outro limitador do sono, que pode ser tratado para diminuir a sonolência diurna", complementa a Dra. Ana Carolina. 

Narcolepsia tem cura?

Assim como outras doenças crônicas, a narcolepsia não tem cura. Apesar disso, com acompanhamento médico e tratamento adequado, é possível aliviar sintomas, evitar os ataques de sono e melhorar a qualidade de vida. 

Identificação de distúrbios do sono

O histórico do paciente é sempre fundamental para se formular um diagnóstico. O uso de escalas também auxilia na avaliação objetiva da qualidade do sono e da sonolência diurna. Além disso, podem ser solicitados exames complementares como os descritos a seguir.

  • Polissonografia – analisa a organização do sono noturno (estágios não REM e REM). Gera informações sobre o tempo de cada estágio e possíveis fragmentações e alterações, como a apneia do sono.
  • Teste das latências múltiplas do sono – geralmente solicitado depois da realização da polissonografia, é capaz de registrar o curto intervalo entre o adormecer e o início do estágio REM nos períodos diurnos.
  • Testes genéticos para causas relacionadas – verificam, por exemplo, a presença de uma variação gênica, o alelo HLA DQB1*0602, encontrado em mais de 90% dos pacientes com narcolepsia e cataplexia.
  • Análise de líquido cefalorraquidiano para dosagem de orexina (hipocretina). 

Que médico trata a narcolepsia?

O neurologista é o profissional responsável pelo diagnóstico e acompanhamento de pacientes com narcolepsia. É ele quem prescreve medicamentos e indica cuidados que ajudam no controle do quadro.

A Dra. Ana Carolina explica que as recomendações do especialista podem incluir a adoção de medidas para melhor adaptação à rotina, como a introdução de cochilos diurnos e de atividades que minimizem a monotonia para reduzir o risco de ataques de sono. Em paralelo, medicações podem diminuir a sonolência excessiva diurna e aprimorar a qualidade do sono noturno, transformando-o em um sono mais profundo e reparador. Cabe ressaltar que pacientes com narcolepsia devem evitar atividades “perigosas", como dirigir e manusear máquinas pesadas. 

Neurologia no Centro Médico da Gávea e no Hospital São Lucas Copacabana: assistência com qualidade e segurança

Nossa equipe multidisciplinar experiente, que atende no Centro Médico da Gávea, é focada no acolhimento humanizado, diagnóstico e acompanhamento de pacientes com os principais quadros neurológicos. Também contamos com tecnologia diferenciada para a realização de exames e procedimentos ágeis e seguros que, muitas vezes, são essenciais para aumentar as chances de recuperação do paciente.

Já no Hospital São Lucas Copacabana, o neurologista atua em casos urgentes de doenças cerebrovasculares. Além das afecções cerebrovasculares, outras condições são recorrentes na atenção neurológica, como manifestações inflamatório-infecciosas do sistema nervoso, cefaleias refratárias e quadros epiléticos. Atenção importante também é dada às intercorrências neurológicas geradas por complicações de doenças sistêmicas. Para mais informações e agendamento, ligue para (21) 2545-4000 (opção 2).

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